Mari Calegari Psi

Documento comentado · M-02

Guia do MTE sobre fatores de risco psicossociais comentado por Mariana Calegari

Rascunho de 05/10/2026 · revisado em: aguardando a revisão da Mariana

O que este texto é e não é: educação em saúde a partir de um documento público, escrita por uma psicóloga, com o pilar N assinado por uma nutricionista. Não substitui a leitura do documento oficial, nem avaliação ou atendimento psicológico ou nutricional.

Ficha do documento

Órgão
Ministério do Trabalho e Emprego, Secretaria de Inspeção do Trabalho, Coordenação-Geral de Normatização e Registros
Título
NR-1 – Gerenciamento de riscos ocupacionais (GRO). Guia de informações sobre os Fatores de Riscos Psicossociais Relacionados ao Trabalho
Edição
Brasília, 2025
Formato
PDF · 985 KB · 19 p.
Licença
“Autorizada a reprodução desde que citada a fonte” (expediente do guia)
Link oficial
Guia no gov.br (PDF · 985 KB)
Consultado em
05/10/2026

Resposta direta

Para o MTE, fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho são perigos que vêm da concepção, da organização e da gestão do trabalho, como sobrecarga, assédio, falta de apoio e pouca clareza de papel. O guia explica como a empresa pode identificá-los e preveni-los, e deixa claro que isso não é avaliar a saúde mental de cada trabalhador.

Se você chegou aqui porque…

Se você chegou aqui porque trabalha em RH, lidera uma equipe ou simplesmente quer entender o vocabulário que começou a aparecer nas reuniões, este texto traduz o guia oficial. Se o que te trouxe foi um sofrimento pessoal, o bloco “Quando procurar ajuda” está logo abaixo.

O que o documento diz

  • “Fatores de risco psicossociais “relacionados ao trabalho”. É muito importante perceber o final dessa frase inserida no texto da NR-1, pois existem outros aspectos relacionados ao tema “psicossocial” que estão fora do campo do trabalho”

    Guia, p. 5
  • “perigos decorrentes de problemas na concepção, na organização e na gestão do trabalho, que podem gerar efeitos na saúde do trabalhador em nível psicológico, físico e social”

    Guia, p. 6 (definição para fins do GRO)
  • “Não se trata de verificar sintomas individuais ou sensação do que está ocorrendo no trabalhador, ou de medir algum sinal biológico”

    Guia, p. 6
  • “O MTE não indica nenhuma ferramenta ou metodologia específica para identificação e avaliação de risco dos fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho.”

    Guia, p. 16, pergunta 4
  • “Deve-se dar preferência para intervenções que modifiquem as condições da organização de trabalho, nos termos da NR-1 e da NR-17, do que as intervenções pessoais ou comportamentais.”

    Guia, p. 15

Psico-social: por que essa palavra assusta tanto?

Eu gosto de começar pelas palavras. “Psicossocial” junta o que acontece dentro da gente (psico) com o que acontece entre a gente (social). O guia do MTE faz uma escolha importante: ele não fala de “riscos psicológicos do trabalhador”, fala de perigos que nascem da forma como o trabalho é pensado, organizado e gerido. O foco sai da pessoa e vai para as condições.

O que o guia diz, sem juridiquês

Um detalhe de datas: o guia foi escrito quando a vigência prevista era 26/05/2025 (p. 4); depois, a Portaria MTE nº 765/2025 adiou o início para 26/05/2026, data em que passou a valer.

O guia traz uma listagem exemplificativa de perigos (p. 7): assédio de qualquer natureza, má gestão de mudanças, baixa clareza de papel, baixas recompensas e reconhecimento, falta de suporte, baixo controle e falta de autonomia, baixa justiça organizacional, eventos violentos ou traumáticos, subcarga e sobrecarga, maus relacionamentos, dificuldade de comunicação, trabalho remoto e isolado. Ao lado de cada um, a possível consequência, quase sempre “transtorno mental”.

Ele também propõe passos preliminares: verificar se a empresa precisa de ajuda especializada, envolver todas as partes, atribuir responsabilidades e comunicar os trabalhadores com transparência (p. 8). Quando houver questionário, pede ambiente de confiança e anonimato (p. 10). E traz um exemplo hipotético de um escritório com 19 pessoas e sobrecarga, em que a equipe deixava de fazer o intervalo de descanso e refeição para dar conta das demandas (p. 14).

O que isso muda na sua rotina?

Se você é colaboradora ou colaborador

  • Se a sobrecarga, o assédio ou a falta de apoio fazem parte da sua rotina, o guia dá nome oficial a isso. Nomear é o primeiro passo para conversar.
  • Questionários sobre riscos psicossociais avaliam o trabalho, não você (guia, p. 16, pergunta 6).
  • Você pode perguntar à CIPA ou à liderança como os trabalhadores participam do processo.

Se você é gestora, gestor ou do RH

  • Prepare o terreno: levante afastamentos, análises anteriores e converse com a equipe antes de aplicar qualquer ferramenta (p. 8 e 9).
  • Escolha a ferramenta adequada ao porte e ao risco; o MTE não indica uma específica (p. 16).
  • Prefira medidas na organização do trabalho, como priorização de tarefas, pausas e redistribuição de carga (p. 14 e 15).

Como eu leio isso, como psicóloga

O exemplo do escritório me tocou porque é uma cena que eu escuto muito: a pessoa que almoça em frente à tela e sente culpa quando para. Na Gestalt, a gente chamaria isso de um ajustamento criativo que virou hábito: um jeito de se adaptar que um dia fez sentido e que agora cobra um preço. O guia nomeia a sobrecarga como fator de risco do trabalho. Isso tira um peso que muita gente carrega sozinha: não é questão de força de vontade.

No meu texto sobre inteligência emocional, eu falei de autoconhecimento, autogestão, consciência social e habilidades sociais, inspirada no campo aberto por Daniel Goleman (1995). Gosto dessa lente aqui, com um cuidado: a inteligência emocional ajuda você a perceber e nomear o que sente, mas não pode virar mais uma cobrança individual (“se você fosse mais resiliente, aguentaria”). O próprio guia prefere mudar a organização do trabalho a pedir mudança de comportamento das pessoas (p. 15).

Para a conversa entre equipe e liderança, a Comunicação Não Violenta (Rosenberg, 2006) é uma ponte possível: descrever o que acontece sem rótulo (“as entregas de três projetos caíram na mesma semana”), dizer como isso afeta, nomear a necessidade e fazer um pedido possível. E, como lembra Brené Brown, é preciso coragem para admitir “não estou dando conta”. Lideranças que conseguem acolher essa frase, sem punição, criam o ambiente de confiança que o guia pede.

Na dimensão “Ritmar a rotina” do mapa didático que uso aqui no site (NEURO), as pausas são parte do trabalho, não prêmio por produtividade. O guia aponta “pausas adequadas e regulares” como medida possível (p. 15).

Onde está o limite do guia

O guia define “relacionados ao trabalho” e deixa o resto de fora. Isso não é frieza, é limite da norma. O que acontece na sua casa, nas suas relações, na sua história não entra no inventário de riscos da empresa, e continua importante. Esse “resto” pode ser cuidado em terapia, se você quiser. E um alerta de leitura: a listagem é exemplificativa, não um checklist. O documento oficial de perguntas e respostas do MTE (2026) reforça que ela tem caráter orientativo e não é taxativa.

Um micro-acordo

Nesta semana, experimente fazer uma pausa de verdade por dia, longe do posto ou da tela, nem que sejam dez minutos. Observe, sem julgar, o que aparece: culpa, alívio, inquietação. Isso já é informação sobre você e sobre o seu trabalho.

Quando procurar ajuda

Se a sobrecarga já virou sintoma, como dor no corpo, irritação constante, insônia, crises de choro ou sensação de vazio, vale procurar cuidado mesmo que o trabalho ainda não tenha mudado. Psicoterapia pode ajudar, e a rede pública também acolhe.

As lentes acima (Gestalt-terapia, Comunicação Não Violenta, inteligência emocional e os estudos de Brené Brown sobre vulnerabilidade e vergonha) são referências de leitura que orientam o meu olhar, não métodos com eficácia garantida para o seu caso.

N · Nutrir o corpo · pela nutrição, Ana Ceregatti, CRN3 4816

Pilar N do NEURO. Os pilares E, U, R e O, no texto acima, são da psicóloga Mariana Calegari; cada uma fala só dentro da própria profissão.

No exemplo do guia do MTE, a sobrecarga leva muitos trabalhadores “a ignorarem o intervalo para descanso e refeição” (p. 14), e uma das medidas é criar “uma cultura favorável ao intervalo de descanso e refeição” (p. 15). O Guia Alimentar para a População Brasileira (Ministério da Saúde, 2014) olha a mesma pausa pelo lado da comida e recomenda “evitar comer na mesa de trabalho, comer em pé ou andando” (cap. 4, p. 93).

Na prática

  • Para o Guia, comer em horários parecidos, devagar e sem outra atividade favorece a digestão (cap. 4, p. 92). Na maioria dos casos, isso começa por um intervalo que existe de verdade.
  • Fora de casa, o Guia aponta a comida feita na hora, como restaurante a quilo e refeitório com comida caseira, e a comida levada de casa (p. 109; passo 9, p. 128).
  • Comer com colegas “aumenta o senso de pertencimento” (p. 96), o que conversa com as pausas para interagir que o MTE sugere.

O posicionamento da Escola

Eu leio esse exemplo com alívio: ele tira a refeição do campo da força de vontade e a coloca na organização do trabalho. Na Escola, defendo comida de verdade, integral, vegetal e natural; mas nenhuma marmita resolve sozinha uma jornada sem pausa. Diretriz é referência populacional; o seu caso é conversa de consulta.

O cuidado conjunto de psicologia e nutrição tem nome, Clínica Nutrindo Cuidados, hoje em pausa. Para continuar a leitura: Comer com atenção, no lugar certo e em companhia, da série Guia Alimentar 2014 comentado.

Fonte: Guia Alimentar para a População Brasileira, 2ª ed. (PDF · 4,4 MB), cap. 4, p. 92, 93 e 96; cap. 5, p. 109; Dez passos, passo 9, p. 128. Texto preparado com apoio de IA; responsabilidade técnica da nutricionista (revisão dela pendente).

Ana Ceregatti, Nutricionista · CRN3 4816

Na sua região

1.607 notificações de transtornos e doenças relacionados ao trabalho no estado de São Paulo, 6,2 por 100 mil trabalhadores(as) · São Paulo (UF de notificação) · janeiro a junho de 2025.

Fonte: Ministério da Saúde, Boletim Epidemiológico v. 56 nº 19, Tabela 1 (Sinan, dados extraídos em 18/07/2025, sujeitos a alterações), consultada em 05/10/2026. Método: contagem de notificações no Sinan e coeficiente por 100 mil trabalhadores(as); o grupo inclui transtornos mentais, LER/Dort, câncer, dermatoses, perda auditiva e pneumoconioses relacionados ao trabalho. Dado agregado, de população: não diz nada sobre uma pessoa.

Mais dados públicos de saúde: observatório de dados públicos de saúde na sua região (Ana Ceregatti).

ECO30 · checkpoint

Se o que te trouxe até aqui foi a dificuldade de parar para comer no meio do trabalho, este mesmo tema é lido por Ana Ceregatti, nutricionista · CRN3 4816, a partir do Guia Alimentar para a População Brasileira (Ministério da Saúde, 2014): Guia Alimentar para a População Brasileira (2014) comentado.

Onde buscar no SUS

  • Unidade Básica de Saúde (UBS), posto ou Saúde da Família: a porta de entrada para começar o cuidado.
  • CAPS, o Centro de Atenção Psicossocial do seu município, para sofrimento psíquico intenso ou persistente.
  • UPA 24h, pronto-socorro e hospitais, em urgência.
  • SAMU 192, em emergência.
  • CVV 188, apoio emocional gratuito e sigiloso, 24 horas.

Recorte da lista “Onde buscar ajuda” da página oficial do Ministério da Saúde Suicídio (Prevenção), consultada em 05/10/2026.

Perguntas frequentes

O que são fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho?

Para o MTE, são perigos que decorrem de problemas na concepção, na organização e na gestão do trabalho e que podem gerar efeitos na saúde em nível psicológico, físico e social.

O MTE exige um questionário específico?

Não. O guia diz que o MTE não indica ferramenta ou metodologia específica; a escolha é da organização, com profissionais de SST.

Problemas fora do trabalho entram na avaliação?

Não. O guia responde que só entram os fatores relacionados ao trabalho, isto é, às condições em que o trabalho é realizado.

Referência e transparência

Documento oficial: BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. NR-1 – Gerenciamento de riscos ocupacionais (GRO): Guia de informações sobre os Fatores de Riscos Psicossociais Relacionados ao Trabalho. Brasília: MTE, 2025. 19 p. Disponível em: Guia de informações sobre os Fatores de Riscos Psicossociais Relacionados ao Trabalho (MTE, 2025). Acesso em: 05/10/2026.

Leituras de apoio (lentes, não métodos):

  • GOLEMAN, D. Inteligência emocional: a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente. Trad. Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.
  • ROSENBERG, M. B. Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Ágora, 2006.
  • BROWN, B. A coragem de ser imperfeito: como aceitar a própria vulnerabilidade, vencer a vergonha e ousar ser quem você é. Trad. Joel Macedo. Rio de Janeiro: Sextante, 2016 (título original: Daring Greatly).

Fonte de nutrição (pilar N): BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. 156 p. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf. Acesso em: 05/10/2026.

Como citar esta página: CALEGARI, Mariana; CEREGATTI, Ana. Guia do MTE sobre fatores de risco psicossociais comentado por Mariana Calegari. Mari Calegari Psi, 05/10/2026. Disponível em: https://maricalegaripsi.com.br/biblioteca/guia-mte-fatores-de-risco-psicossociais/.

Sem patrocínio e sem conflitos: este texto não tem patrocínio nem vínculo com os órgãos ou autores citados.

Uso de IA: texto preparado com apoio de inteligência artificial a partir dos documentos oficiais, para revisão humana da Mariana Calegari (revisão pendente).

Mariana Calegari, Psicóloga · CRP 06/176180