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Documento comentado · M-06

Boletim Epidemiológico sobre doenças e agravos relacionados ao trabalho (2025) comentado por Mariana Calegari

Rascunho de 05/10/2026 · revisado em: aguardando a revisão da Mariana

O que este texto é e não é: educação em saúde a partir de um documento público, escrita por uma psicóloga. Não substitui a leitura do documento oficial, nem avaliação ou atendimento psicológico.

Ficha do documento

Órgão
Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (CGSAT/DVSAT/SVSA)
Título
Boletim Epidemiológico v. 56, nº 19: Monitoramento das doenças e agravos relacionados ao trabalho (Dart): janeiro a junho de 2025
Data
12/12/2025
Formato
PDF · 991 KB · 16 p.
Licença
“É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte e que não seja para venda ou qualquer fim comercial”
Link oficial
Boletim no gov.br (PDF · 991 KB)
Consultado em
05/10/2026

Resposta direta

No primeiro semestre de 2025, o SUS registrou 939 notificações de transtornos mentais relacionados ao trabalho, 0,3% das doenças e agravos relacionados ao trabalho notificados no período. É um número baixo, que fala mais do começo da notificação obrigatória, iniciada em agosto de 2024, do que do tamanho real do sofrimento.

Se você chegou aqui porque…

Se você chegou aqui porque quer saber “quantas pessoas adoecem mentalmente por causa do trabalho no Brasil”, este texto mostra o que o boletim oficial consegue responder e onde ele para. Se você está sofrendo agora, os contatos de ajuda estão no fim.

O que o documento diz

  • “a notificação de Doenças e Agravos Relacionados ao Trabalho (Dart) passou por uma mudança relevante em escala nacional a partir de agosto de 2024, com a inclusão de sete Dart na Lista Nacional de Notificação Compulsória”

    Boletim, p. 1
  • “Transtornos Mentais Relacionados ao Trabalho 0,3% (939)”

    Figura 2, p. 4 (Brasil, jan–jun 2025, n=340.701)
  • “Nos casos de transtornos mentais relacionados ao trabalho, o grupo de trabalhadores dos serviços, vendedores do comércio em lojas e mercados (grupo 5) foi o mais frequente, com 25,1% das notificações”

    Boletim, p. 9
  • “Ressalta-se que os dados apresentados são parciais e sujeitos a atualização semanal.”

    Considerações finais, p. 14

Se tanta gente fala de esgotamento, por que o número é tão pequeno?

Essa foi a minha primeira reação ao ler o boletim. 939 notificações em seis meses, num país com milhões de trabalhadores, parece pouco demais. E é aqui que a leitura atenta faz diferença.

O que o boletim diz, em linguagem simples

Desde agosto de 2024, os transtornos mentais relacionados ao trabalho passaram a ser de notificação compulsória em todos os serviços de saúde, públicos e privados, junto com outras seis doenças ligadas ao trabalho. Antes, eram acompanhados só por uma estratégia de vigilância sentinela. O boletim descreve o primeiro semestre de 2025: 340.701 notificações de doenças e agravos relacionados ao trabalho, a grande maioria acidentes. Os transtornos mentais somam 939 casos.

Entre esses casos, os grupos de ocupação mais frequentes foram trabalhadores dos serviços e do comércio (25,1%) e profissionais das ciências e das artes (21,2%), grupo que inclui profissionais da saúde e do ensino. O próprio boletim lembra que a análise descreve perfis, sem estimar risco entre subgrupos.

Como eu leio isso, como psicóloga

Na Gestalt, a gente aprende com a ideia de figura e fundo: o que aparece em primeiro plano nunca está sozinho. Aqui, a figura é o número 939. O fundo é tudo o que ainda não chega ao sistema: quem não procura atendimento, quem procura e não conta do trabalho, quem conta e não tem a relação reconhecida, quem trabalha na informalidade. O boletim mesmo aponta a dificuldade de estabelecer a relação entre adoecimento e trabalho, sobretudo nas doenças crônicas (p. 3), e recomenda fortalecer a identificação na Atenção Primária.

Isso tem consequência para você: se o seu sofrimento tem a ver com o trabalho, vale dizer isso na consulta, com palavras simples. Nomear a origem possível ajuda o serviço a registrar, e o registro ajuda a política pública a enxergar. A CNV, de Rosenberg, chama isso de expressar a observação e a necessidade com clareza; aqui, a clareza também é um ato de cidadania.

E sobre a vergonha, de novo: muita gente não fala do trabalho na consulta por medo de parecer fraca ou ingrata. Brené Brown mostra que a vulnerabilidade é a base da conexão, não a sua ameaça. Contar o que está acontecendo pode ser o primeiro passo de cuidado.

Leitura crítica: o número e a pessoa

Modo contexto: estes são dados populacionais, parciais e sujeitos a atualização. Não dá para usar o boletim para dizer se o seu caso é ou não relacionado ao trabalho, nem para comparar profissões como se fosse um ranking de risco. E não dá para concluir que “quase ninguém adoece pelo trabalho”: um número baixo de notificação pode refletir pouca identificação, não pouca ocorrência. Outros dados oficiais, como os benefícios do INSS por transtornos mentais, contam uma parte diferente da mesma história.

Um micro-acordo

Na próxima consulta de saúde, seja na UBS ou em outro serviço, experimente incluir uma frase sobre o seu trabalho: o que você faz, quantas horas, o que pesa. Uma frase basta.

Quando procurar ajuda

Se você sente que o trabalho está adoecendo você, procure a UBS para começar o cuidado. Psicoterapia pode ajudar a organizar o que está acontecendo, e a rede pública tem serviços de saúde mental.

As lentes acima (Gestalt-terapia, Comunicação Não Violenta, inteligência emocional e os estudos de Brené Brown sobre vulnerabilidade e vergonha) são referências de leitura que orientam o meu olhar, não métodos com eficácia garantida para o seu caso.

Na sua região

9,8 casos de transtornos e doenças relacionados ao trabalho por 100 mil trabalhadores(as) (10.629 notificações) · Brasil · janeiro a junho de 2025.

Fonte: Ministério da Saúde, Boletim Epidemiológico v. 56 nº 19, Tabela 1 (Sinan, dados extraídos em 18/07/2025, sujeitos a alterações), consultada em 05/10/2026. Método: coeficiente de incidência por 100 mil trabalhadores(as); o grupo reúne transtornos mentais, LER/Dort, câncer, dermatoses, perda auditiva e pneumoconioses relacionados ao trabalho. Dado agregado, de população: não diz nada sobre uma pessoa.

Mais dados públicos de saúde: observatório de dados públicos de saúde na sua região (Ana Ceregatti).

Onde buscar no SUS

  • Unidade Básica de Saúde (UBS), posto ou Saúde da Família: a porta de entrada para começar o cuidado.
  • CAPS, o Centro de Atenção Psicossocial do seu município, para sofrimento psíquico intenso ou persistente.
  • UPA 24h, pronto-socorro e hospitais, em urgência.
  • SAMU 192, em emergência.
  • CVV 188, apoio emocional gratuito e sigiloso, 24 horas.

Recorte da lista “Onde buscar ajuda” da página oficial do Ministério da Saúde Suicídio (Prevenção), consultada em 05/10/2026.

Perguntas frequentes

Transtorno mental relacionado ao trabalho é de notificação obrigatória?

Sim. Segundo o boletim, desde agosto de 2024 integra a Lista Nacional de Notificação Compulsória, com notificação universal.

Quantos casos foram notificados no 1º semestre de 2025?

939 notificações de transtornos mentais relacionados ao trabalho no Brasil, 0,3% do total de Dart notificadas, com dados parciais extraídos em 18/07/2025.

O número baixo quer dizer que pouca gente adoece?

Não necessariamente. O próprio boletim aponta dificuldades em estabelecer a relação com o trabalho, e a notificação universal é recente.

Referência e transparência

Documento oficial: BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Monitoramento das doenças e agravos relacionados ao trabalho (Dart): janeiro a junho de 2025. Boletim Epidemiológico, Brasília, v. 56, n. 19, 12 dez. 2025. Disponível em: Boletim Epidemiológico v. 56 nº 19: Dart janeiro a junho de 2025. Acesso em: 05/10/2026.

Leituras de apoio (lentes, não métodos):

  • PERLS, F.; HEFFERLINE, R.; GOODMAN, P. Gestalt-terapia. Trad. Fernando Rosa Ribeiro. São Paulo: Summus, 1997 (original de 1951).
  • ROSENBERG, M. B. Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Ágora, 2006.
  • BROWN, B. A coragem de ser imperfeito: como aceitar a própria vulnerabilidade, vencer a vergonha e ousar ser quem você é. Trad. Joel Macedo. Rio de Janeiro: Sextante, 2016 (título original: Daring Greatly).

Como citar esta página: CALEGARI, Mariana. Boletim Epidemiológico sobre doenças e agravos relacionados ao trabalho (2025) comentado por Mariana Calegari. Mari Calegari Psi, 05/10/2026. Disponível em: https://maricalegaripsi.com.br/biblioteca/boletim-dart-transtornos-mentais-trabalho-2025/.

Sem patrocínio e sem conflitos: este texto não tem patrocínio nem vínculo com os órgãos ou autores citados.

Uso de IA: texto preparado com apoio de inteligência artificial a partir dos documentos oficiais, para revisão humana da Mariana Calegari (revisão pendente).

Mariana Calegari, Psicóloga · CRP 06/176180